Arquitetura além da imagem: o que vimos no Hunter International Forum
No Hunter International Forum, arquitetos brasileiros e estrangeiros passaram dois dias discutindo o que existe por trás de um projeto. A conversa diz muito sobre o Prazer de morar.
O Auditório Simon Bolívar fica dentro do Memorial da América Latina, o conjunto que Oscar Niemeyer desenhou na Barra Funda no fim dos anos 1980. Foi ali, no fim de setembro, que a segunda edição do Hunter International Forum reuniu arquitetos do Brasil e de outros países em torno de uma provocação que deu nome ao evento: o que os edifícios não contam.

A equipe da Jardins & Co. acompanhou a programação, organizada pela Architecture Hunter, plataforma internacional dedicada à arquitetura e ao design, que reúne premiação, publicações e eventos. Saímos de lá com uma pergunta que tem tudo a ver com o nosso dia a dia: quanto de uma casa cabe em uma fotografia?
A escala humana
A primeira linha de força do fórum foi a escala humana. A campanha Humanise, liderada por Thomas Heatherwick, levou ao palco a ideia de que um edifício também se mede pela emoção que provoca em quem passa por ele, e não apenas pela forma ou pela técnica.
Rute Nieto Ferreira, do escritório dinamarquês Gehl, falou sobre a relação entre o espaço público e a vida que acontece nele. A mexicana Tatiana Bilbao fez um percurso que partia da mesa, o lugar mais íntimo da casa, e chegava à cidade. Arthur Casas trouxe a pesquisa e a inovação como parte da prática cotidiana de um escritório.
Em comum, as falas trataram a arquitetura a partir de quem a usa. É justamente o ponto de vista que costuma ficar de fora quando um projeto vira imagem.
Contexto, técnica e material
Outro bloco olhou para o que sustenta um projeto: contexto, técnica e material. O paraguaio Solano Benítez, conhecido pelo trabalho com o tijolo, o escritório paulistano FGMF e Kai-Uwe Bergmann, sócio do BIG, ampliaram a conversa sobre como o lugar e o modo de construir definem o resultado final.
Guá Arquitetura e Natureza Urbana levaram a discussão para o impacto social e para a arquitetura regenerativa. Nesse bloco, a escolha de um material apareceu como uma decisão com consequências para quem mora e para o entorno, muito além do acabamento.
Uma obra entre gerações
Um dos momentos centrais da edição foi a estreia mundial de 360º: Rebelo de Andrade, no dia 30 de setembro. O filme abre a nova série documentária da Architecture Hunter e acompanha o escritório português de Luís e Tiago Rebelo de Andrade, pai e filho, do estúdio em Lisboa até obras como as Tree Snake Houses, em Pedras Salgadas, e o Six Senses Douro Valley.
A série se organiza em quatro eixos: pessoas, estúdio, obra e legado. Depois da exibição, os dois arquitetos conversaram com o público sobre como uma prática se forma entre gerações, a partir da paisagem, da memória e do ofício.
Reconhecemos essa ideia de perto. Uma casa também atravessa gerações, e o que permanece nela raramente é o que aparece primeiro na foto.

Arquitetura & Curadoria
Quando um imóvel entra para a curadoria da Jardins & Co., a fotografia é a última etapa. Antes dela, olhamos para o que o enquadramento não alcança: o caminho da luz ao longo do dia, o som da rua, a forma como a sala se abre para o jardim, os materiais que envelhecem bem, quem assinou o projeto e por quê.
O fórum deu nome a esse exercício. Um edifício conta pouco pela imagem e muito pela experiência de estar nele. Por isso, as casas que mais nos interessam são aquelas cuja arquitetura se revela na visita, no momento em que a pessoa entende como seria viver ali.
Na próxima vez que olhar a fotografia de uma casa, vale perguntar o que ficou fora do quadro. Em geral, é ali que está o Prazer de Morar.
Fotos: Ana Ferriani / Architecture Hunter.
Fonte: Architecture Hunter, Hunter International Forum at Memorial da América Latina.
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