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Você ama a IA? Ou ela te deixa cético e desconfiado? Seja como for, ela já chegou. Conforme a tecnologia entra na nossa vida e dentro de casa, a consultora de IA, JENNIFER FRUEHAUF defende que agora é a hora de construir boas bases para bons resultados.

Vale é assim. Divide gente. Até no Vale do Silício, onde se cunham termos e fortunas, as rachaduras humanas aparecem. De um lado estão os que veem na IA uma explosão de possibilidades boas, uma pista de decolagem para a abundância total, com menos esforço no trabalho, mais tempo livre, saúde mais eficiente e vida mais longa. Do outro, quem enxerga o sinal de que vem coisa muito ruim por aí, capaz de ameaçar a própria humanidade.

Para os dois lados, o que está em jogo é enorme. Existencial, até. O problema? Os dois estão errados.

Uma trajetória radical, em velocidade de foguete

Desde o lançamento público do ChatGPT, em novembro de 2022, os chatbots de IA se espalharam em velocidade viral. Começamos perguntando “o que é ChatGPT?” e, pouco depois, já pedíamos que a IA escrevesse nossos e-mails ou resumisse documentos que a gente não tinha paciência de ler. Aí veio a onda de sensacionalismo, inevitável. Robôs humanoides já batem à porta. Alguns montam e soldam carros. Outros rebolam. Sim, rebolam. E você certamente não perdeu as reportagens e os documentários sobre gente de verdade se apaixonando e se casando com parceiros gerados por IA.

É difícil negar que a IA seja a ferramenta mais transformadora desde que descobrimos e domamos a eletricidade. É a tecnologia que mais cresce rápido na história e está mudando como vivemos, trabalhamos e pensamos. Sam Altman, CEO da OpenAI, prevê que a IA vai mudar o funcionamento do capitalismo. Provavelmente não em prejuízo dele.

As quatro grandes techs americanas, Microsoft, Alphabet, Meta e Amazon, estão gastando como nunca: US$ 650 bilhões investidos em IA só neste ano. Em três anos, o valor de mercado da OpenAI saltou de US$ 29 bilhões para mais de US$ 730 bilhões. O apetite dos investidores é grande. Ações ligadas à IA respondem por 75% da alta do S&P 500 desde a estreia do ChatGPT.

Uma infinidade de significados na sede da Meta em Menlo Park, Califórnia. (Shutterstock | Tada Images)

Não à toa, as empresas de IA prometem a utopia, com a ideia de “inundar o mundo de inteligência… abundância sustentável para todos”. O trabalho vai ser opcional e a pobreza global, magicamente eliminada. As doenças podem acabar. As casas inteligentes vão ficar mais inteligentes e nos deixar mais saudáveis. Segundo Dario Amodei, CEO da Anthropic, empresa que desenvolveu o LLM (modelo de linguagem de grande porte) Claude, a IA avançada pode dobrar a expectativa de vida humana nos próximos cinco a dez anos. Boa notícia?

Manchetes terríveis chegam todo dia. Suicídios de adolescentes supostamente ligados ao uso intenso do ChatGPT. O Grok facilitando deepfakes sexuais de mulheres e crianças. A Amazon abandonando sua ferramenta de recrutamento por IA depois de ficar provado que ela favorecia homens. Toda a questão da escola, com plágio online e IA disputando quem chega primeiro ao fundo do poço ético. Um advogado gerando precedentes para usar em juízo e descobrindo, tarde demais, que eram invenções da IA embrulhadas para presente.

O trabalho vai ser opcional e a pobreza global, magicamente eliminada. As doenças podem acabar. As casas inteligentes vão ficar mais inteligentes e nos deixar mais saudáveis.

Na frente do trem-bala da IA

Dez anos atrás, quem defendesse a busca pela Inteligência Artificial Geral, o ponto teórico em que a IA vai dar conta de tarefas intelectuais no nível de um ser humano, era motivo de piada na comunidade científica. Hoje a AGI virou missão declarada das principais empresas do setor. E elas não querem só chegar lá. Querem chegar primeiro.

Mesmo engatinhando, a velocidade e a escala da mudança já passaram por cima da nossa capacidade de resposta. Empresas já culpam a IA por demissões, e a previsão é de um tsunami de cortes em cargos de escritório nos próximos anos. O conteúdo deepfake cresce sem parar e alimenta uma disparada nas fraudes de identidade, enquanto os reguladores correm atrás do prejuízo.

E isso é só o começo. Estamos montando agora a infraestrutura de como a IA vai ser usada no futuro. Prepare-se. As escolhas que a gente fizer hoje, enquanto a tecnologia se infiltra nos nossos escritórios, nas nossas casas e nos nossos bolsos, vão moldar a vida de gerações inteiras, quando tudo isso já for o novo normal.

Quão humano é o seu cérebro? Sede da Amazon, Seattle. (Shutterstock | Tada Images)

Utopia cor-de-rosa ou apocalipse dos robôs?

O bate-boca de um lado a outro do vale não ajuda em nada. A gritaria bate na encosta oposta e volta.

Os alarmistas concordam que dá para chegar à AGI, mas temem que a gente perca o controle. Modelos aprendendo a melhorar sozinhos, sem ninguém no meio, saindo da linha e terminando, no pior cenário, na extinção da espécie. Tem quem argumente que a humanidade poderia ser varrida do mapa por um pedido feito de brincadeira, algo como “produza o maior número possível de clipes de papel”. Pelo raciocínio, um modelo obediente demais levaria a instrução tão a sério que gastaria todos os recursos do planeta para produzir, isso mesmo, mais clipes.

Os otimistas dizem que tudo está em como você formula o prompt. Cuidado com o que você pede ao seu robô rebolante.

Como aproveitar ao máximo os benefícios da IA e reduzir os danos?

O curioso é que os dois lados erram no mesmo ponto. As duas versões do futuro partem do princípio de que as pessoas não têm poder de decisão nenhum diante do avanço da IA. Não é bem assim, a menos que a gente deixe.

Em vez de ficar preso a cenários teóricos, o debate mais sério e mais útil é o que coloca as pessoas no centro. E isso significa responder a uma pergunta. Como aproveitar ao máximo os benefícios da IA e reduzir os danos?

E você duvidava da existência de discos voadores? Que outras estranhezas andam pedindo à Siri na sede da Apple, em Cupertino, Califórnia? (Shutterstock | LoveMetaverse)

Ninguém é de ferro

Essa pergunta pede decisões menos simplistas sobre regulação, educação em IA, bom senso humano e o valor que a gente dá às pessoas de modo geral. E pede que muito mais gente entre no debate, para definir que tipo de futuro a gente quer.

Afinal, tecnologia não é destino. A inovação pode avançar sem trégua, mas quem decide se e como vamos usar somos nós. As estradas ainda estão sendo abertas. Que levem ao lugar certo. Segundo o que funciona quase como um manifesto da Sopra Steria, uma das grandes empresas de tecnologia da Europa, o futuro definitivamente deve incluir seres humanos. Boa notícia.

Tecnologia não é destino. As estradas ainda estão sendo abertas. Que levem ao lugar certo.

“O caminho correto para a IA passa por ir além da mera adoção rumo a uma abordagem estratégica e centrada no humano, que priorize implantação segura, salvaguardas éticas e infraestrutura sustentável; o caminho à frente não é apenas tecnológico, mas envolve capacidades humano-plus, nas quais a IA atua como colega de trabalho e não como substituta, com a supervisão humana permanecendo essencial.”

Se isso conforta quem desconfia da tecnologia que está na sala, talvez dê para dormir tranquilo sabendo que nenhum ser humano foi maltratado, nem sequer envolvido, na produção dessa frase de 62 palavras gerada por IA.

Artigo originalmente publicado por Jennifer Fruehauf em Forbes Global Properties.

Jennifer Fruehauf é consultora de transformação em IA e estratégia digital. Seu trabalho ajudou marcas dos setores de consumo, varejo e tecnologia a crescer colocando as pessoas no centro. Ela também escreve e palestra sobre IA e mulheres em posições de liderança. Hoje mora na Holanda, mas já morou em Toronto, Londres e Berlim.

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