O lado sério de brincar
Brad Pitt tem seus Legos. Beyoncé vive nos games. Rod Stewart passa horas conduzindo trens em miniatura por uma metrópole americana construída palmo a palmo. Neil Young brinca de trem no celeiro como se o mundo lá fora não existisse. Por que os adultos ainda precisam, de vez em quando, ser crianças?
Os seres humanos nunca crescem de verdade, segundo o psiquiatra Dr. Stuart Brown. Carregamos traços da infância para a vida adulta. Fomos feitos para brincar, nos formamos brincando, e mantemos esse desejo, essa necessidade, para sempre. Dr. Brown tem razões pessoais para defender a tese: é fundador do National Institute for Play e autor de um livro inteiro sobre o assunto. Mas talvez a reação mais honesta seja simplesmente: faz todo o sentido.
O conceito de que adultos preservam o instinto lúdico é levado a sério por grandes corporações. Sérias o suficiente para reinventar o ambiente de trabalho muito além das dinâmicas convencionais do século passado.
Trabalho, prazer e solução de problemas
Por mais que a ideia convide ao ceticismo, há dados que comprovam sua eficácia. O Wellbeing Research Centre da Universidade de Oxford acompanhou 1.800 atendentes de call center com maior autonomia e engajamento do que um grupo de controle, e registrou que um ponto a mais no índice de felicidade resultou em 12% a mais de produtividade, com crescimento proporcional nas vendas.
“As grandes corporações não criam espaços de lazer por modismo”, diz Dr. Brown. “Elas sabem que dar às pessoas espaço para relaxar favorece retenção e criatividade. Brincar é o meio pelo qual nos preparamos para o inesperado e buscamos soluções que ainda não existem.”
Competição: onde o jogo vira coisa séria
O que é, afinal, brincar? Para Brown, é qualquer atividade sem propósito definido, totalmente absorvente, capaz de fazer o tempo desaparecer. Leitura, devaneio, natação, uma tarde sem agenda.
E jogos competitivos, como o xadrez? Aqui as fronteiras começam a se dissolver. O Professor Fernand Gobet, Mestre Internacional da Federação Mundial de Xadrez, pondera: “Dizemos que jogamos xadrez, tênis, futebol. Mas jogos competitivos acendem paixões intensas. Vencer ou perder é algo muito sério.” Quando o jogo vira competição, o estado de leveza se vai. Entram estratégia, julgamento, pressão.
Lazer como estilo de vida
Há séculos criamos espaços de prazer dentro de casa. Proprietários abastados do século XVIII tinham salas de bilhar, salas de música e gramados para croquet. Alguns, salões de baile.
Hoje, grandes propriedades abrigam cinemas particulares, spas, simuladores de golfe, quadras de tênis, salas de karaokê. Uma casa vendida em Londres no ano passado por cerca de £ 20 milhões contava com duas piscinas, campo de golfe, duas áreas de jogos e pista de boliche. Em Nova York, o arquiteto Adam Kushner mostrou sua residência para equipes de filmagem, e o destaque foi a parede de escalada.
O ápice da tendência é uma propriedade em construção na Flórida, cotada em cerca de US$ 285 milhões, com pista de boliche, museu de automóveis, estande de tiro e cascatas particulares.
E ainda assim, brincar de verdade não exige nada disso. Basta disposição e um pouco de tempo livre. Ou, se o seu cachorro tiver algo a dizer sobre isso, uma bola e um pedaço de pau.
Artigo originalmente publicado pela Storied, em parceria com a Forbes Global Properties. Conteúdo e direitos editoriais pertencem aos seus respectivos autores.