Kidfluence: a nova geração de férias em família
Quem realmente manda em casa? Seriam as crianças? Elas já participam das decisões sobre tecnologia, a compra de um carro novo e, especialmente, as férias em família. As marcas de turismo mais atentas conhecem bem esse comportamento. LYSANNE CURRIE visita resorts que estão se adaptando a essa nova dinâmica de influência familiar: o kidfluence.
As viagens em família estão em alta e, com elas, cresce o poder de influência das crianças. Segundo o relatório Travel Trendline 2026, da Mastercard, 76% dos pais afirmam que os interesses dos filhos são o principal fator na escolha do destino das férias. Outros impressionantes 85% reconhecem que seus pequenos Napoleões têm, na prática, poder de veto sobre lugares que consideram “sem graça”. As férias estão sendo planejadas cada vez mais em torno dos desejos das crianças, já que a possibilidade de viver experiências envolventes e compartilhar momentos de alegria acaba se sobrepondo às preferências dos adultos. Em outras palavras, é o menor integrante da família quem está assumindo o comando.
Os resorts, em particular, foram rápidos em perceber essa transformação. Embora os tradicionais clubes infantis, com brincadeiras animadas e competições, continuem fazendo sucesso entre os mais novos, os hotéis de luxo estão reinventando radicalmente o papel dessas atividades nas férias em família.

Um desses exemplos é o Schloss Elmau, extraordinário hotel e refúgio cultural nos Alpes da Baviera. Os adultos também têm seu espaço por lá. Personalidades influentes de diferentes partes do mundo frequentam o local para apreciar a natureza, assistir a concertos noturnos de música clássica e conversar com pessoas de interesses semelhantes. O hotel já recebeu duas reuniões de cúpula do G7. Seu proprietário, o ex-empreendedor de tecnologia Dietmar Müller-Elmau, descreve o Schloss como “uma universidade permanente”, que combina hospedagem sofisticada com conferências e programação cultural sobre música, literatura, ciência, política e filosofia.
E, sim, o hotel conta com um clube infantil que se diferencia dos demais. Sua filosofia educacional também se estende aos hóspedes mais jovens, partindo da ideia de que curiosidade, criatividade e aprendizado devem fazer parte das férias tanto quanto piscinas, esportes e entretenimento.

Müller-Elmau não hesita em classificar a maioria das programações infantis como “sem sentido… talvez as aulas de culinária sejam interessantes. Mas, no fundo, é apenas outra maneira de manter as crianças ocupadas”. No Elmau, o objetivo é estimular a curiosidade e a compreensão.
As crianças que se hospedam no Schloss Elmau geralmente pertencem a famílias jovens, de alto poder aquisitivo e rotinas intensas. Algumas convivem com um sentimento bastante contemporâneo: a culpa por não passarem tempo suficiente juntas. A resposta de Müller-Elmau é oferecer atividades que realmente tenham valor. Experiências que dificilmente encontrariam em casa, incluindo o contato com crianças de outras culturas.
As oficinas abordam temas como literatura, ciência e fotografia. “Ontem, vi crianças pequenas fotografando a linda luz do fim da tarde”, conta Müller-Elmau. “Quando você entrega uma câmera a uma criança, ela passa a enxergar a natureza de outra maneira. Isso amplia seus horizontes, em um momento em que encontrar significado é um dos recursos mais escassos que temos.” Nos Laboratórios de Criatividade com Inteligência Artificial, o pensamento crítico ajuda as crianças a compreender o mundo em que estão crescendo, em vez de apenas consumi-lo passivamente.

Férias que também ensinam
Será que aprender pode realmente fazer parte das férias? Afinal, férias não deveriam ser sinônimo de diversão? As duas coisas não são incompatíveis, desde que a equipe responsável e o ambiente proporcionem experiências envolventes. Vale observar também como o aprendizado acompanha uma das grandes tendências do luxo contemporâneo: experiências cuidadosamente selecionadas são mais valorizadas do que presentes materiais. Isso certamente se aplica às crianças, mas também aos pais que procuram momentos especiais de conexão. Afinal, uma família que se diverte junta…
Não surpreende que os dados de grandes grupos hoteleiros confirmem essa tendência. O relatório internacional de tendências da Hilton para 2026 revelou que mais da metade das famílias escolhe seus hotéis considerando a qualidade dos clubes infantis. Já o Club Med constatou que 40% das crianças visitaram pelo menos cinco países antes dos oito anos. E há bons motivos para isso: os pais acreditam que as viagens internacionais ajudam a formar crianças curiosas, confiantes e familiarizadas com diferentes culturas.
Vale observar como o aprendizado acompanha uma das grandes tendências do luxo contemporâneo: experiências cuidadosamente selecionadas são mais valorizadas do que presentes materiais.
E o que desperta o interesse das atuais gerações Z e Alpha? A preocupação com o planeta provavelmente está no topo da lista. Por isso, muitas famílias escolhem resorts que valorizam a natureza, promovem a conscientização climática e apoiam as comunidades locais.
O St. Regis Maldives Vommuli Resort, refúgio em uma ilha privativa nas Maldivas, criou o The Vommuli Society, um conceito de clube para adolescentes de 13 a 17 anos, com experiências exclusivas e enriquecedoras. As atividades incluem caminhadas fotográficas guiadas e iniciativas de sustentabilidade no Maldivian Culture Lab, programa de vivências culturais que oferece oficinas de artesanato com folhas de palmeira e da tradicional percussão Boduberu.

No Ritz-Carlton Amelia Island, na Flórida, o biólogo marinho do resort conduz expedições para observar o comportamento dos golfinhos. Na Indonésia, o Wildlings Kids’ Club, do NIHI Sumba, oferece atividades como escultura em pedra, exploração de florestas com plantas comestíveis, cuidados com pôneis, soltura de tartarugas e até produção de chocolate em uma fábrica exclusiva para crianças.
No Wild Coast Tented Lodge, no Sri Lanka, a nova Fossil Room oferece estudos sobre biodiversidade, rastreamento de animais, conservação ambiental, cerâmica e atividades científicas de campo. Já o One&Only Mandarina, em Riviera Nayarit, no México, proporciona trilhas pela floresta e visitas a jardins de borboletas acompanhadas por um biólogo.

Preparando o futuro para a Geração Beta
O futuro está ficando cada vez mais jovem e, como sempre, mais barulhento. Os pais ainda podem ser os donos do cartão de crédito, mas são as crianças que têm o poder de veto. A próxima geração de destinos turísticos não competirá apenas pela qualidade do spa, da suíte ou do restaurante, mas também pela experiência que consegue oferecer ao passageiro mais jovem na sala de embarque.
A tendência não dá sinais de desaceleração. A capacidade desses resorts de proporcionar experiências marcantes, despertar a curiosidade, promover conexões e oferecer significado deverá determinar quais deles continuarão relevantes para as próximas gerações. A Geração Beta está chegando.
Matéria originalmente publicada pela Forbes Global Properties.
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